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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

35- Crônica: Conto de uma cidade surreal



Conto de uma cidade surreal.
José Luiz Quadros de Magalhães

Era uma vez uma cidade que se tornou metrópole. Muito jovem foi submetida à ganância de empreiteiros que construíram muitos prédios. Prédios e mais prédios. Asfaltaram tudo. Homens empreendedores fizeram enormes crateras em suas lindas montanhas. Nesta bela cidade, com um pôr do sol tão lindo que deu o nome a nossa cidade, (contam isto, uma vez que seus habitantes não tinham mais tempo de olhar o sol nem a lua), havia muita desigualdade. Em uma distância muito pequena alguns dos seus habitantes viviam em aglomerados (um monte de gente apinhada em um espaço pequeno) enquanto outros viviam em condomínios fechados (pouca gente vivendo em espaços grandes e murados para se defenderem dos apinhados).
Os apinhados resolveram, num certo dia, fazer uma festa. Festa tradicional onde dançavam quadrilha, tomavam quentão e comiam pipoca, amendoim e outras coisas que não se podia comer todo dia.
O poder desta cidade estava organizado na forma de estado moderno. Era um poder centralizado, organizado, burocratizado, encarregado de zelar pelo bem estar de todas as pessoas: os apinhados e os “desapinhados”. Este poder nem sempre existiu para zelar pelo bem estar de todos, mas, ao contrário, ele foi criado para zelar pelo bem e os bens dos “desapinhados”, protegendo a propriedade destes (muitas propriedades) contra os perigosos apinhados (“despropriados” “desproprietários” ou seria “desapropriados” ou simplesmente sem propriedade). Contam que este poder, deste estado moderno, se democratizou e agora deveria zelar pelos bens e pelo bem dos apinhados e desapinhados, proprietários e desproprietários. Difícil tarefa!
A tarefa se tornava ainda mais difícil pelo fato de que este estado serviu durante quase quinhentos anos aos desapinhados, ou seja, eles foram treinados durante muito, muito tempo a reprimir, bater, intimidar, perseguir os apinhados (aquele incomodo permanente, mas necessário, uma vez que os apinhados - desproprietários - serviam aos desapinhados - proprietários - como, digamos, quase escravos).
Logo, como o estado já estava acostumado a reprimir; bater; torturar; encher o saco; intimidar; humilhar; diariamente, durante quinhentos anos, os apinhados (desproprietários), a tarefa agora de proteger a todos, incluindo os apinhadosdesproprietários era um grande desafio.
Voltemos, portanto, a nossa festa dos apinhadosdesproprietários. O que aconteceu foi muito interessante. Como os apinhadosdesproprietários moravam em um lugar apinhado de gente, e como a construção de suas despropriedades não observava os aspectos mínimos de segurança, e como agora, o estado deveria zelar pela segurança das pessoas (de todas as pessoas), antes da festa o órgão estatal garantidor da segurança de todos foi verificar se o local, onde ocorreria a festa, tinha segurança para fazer a festa, garantindo a INTEGRIDADE FISICA DE TODOS. Ora, difícil isto, a despropriedade e o desbairro, onde desmoravam os apinhadosdesproprietários, não era um lugar muito seguro. Logo, o órgão do estado que agora garantia a segurança de todos PROIBIU a festa dos apinhadosdesproprietários.
AÍ recomeçou a tragédia (mais um capitulo, pequeno, pois esta tragédia já dura quinhentos anos).
Muitos apinhadosdesproprietários queriam fazer a festa assim mesmo. Afinal era ali que eles desviviam e desmoravam.
ORA, O ESTADO MODERNO NÃO PODERIA DEIXAR QUE ESTAS PESSOAS COLOCASSEM EM RISCO SUAS VIDAS: A FESTA NÃO PODERIA OCORRER.
A conclusão da história foi bem moderna: para proteger a integridade física das pessoas a festa foi proibida, e para impedir que as pessoas fizessem uma festa que colocava em risco a integridade dos apinhadosdesproprietários a polícia (órgão de proteção de apinhados e desapinhados) foi chamada. A polícia chegou e resolveu o problema, desceu o cacete (bateu, encheu o saco, humilhou, reprimiu e violou a integridade física dos apinhadosdesproprietários) tudo isto para evitar que fosse realizada uma festa que poderia colocar em risco a integridade física dos apinhadosdesproprietários. Afinal, agora nesta república moderna todos devem ser protegidos pelo estado.


Belo Horizonte surreal
            Li hoje, no Jornal Estado de Minas, uma noticia que deixaria Luis Buñuel (o cineasta surrealista espanhol) impressionado e faria Salvador Dali (o pintor surrealista também espanhol) pintar um novo quadro, uma Guernica em memória à incessante repressão da pobreza (é impressionante como o estado “enche o saco dos pobres”).
            A notícia tem o seguinte título: “Arraial proibido na Prado Lopes”.
            Resumindo: Moradores do aglomerado da Pedreira Prado Lopes organizaram uma festa “julina”. A festa foi autorizada pela Prefeitura. O corpo de bombeiro fez a vistoria no local para verificar se havia segurança para os moradores. Como foram constatadas irregularidades que poderiam por em risco a segurança física dos participantes da festa, o Ministério Público, para proteger estas pessoas proibiu a festa. Como pessoas insistiram na festa e se manifestaram contra a proibição a polícia foi chamada. Ocorreram confrontos violentos entre a polícia e os manifestantes, pessoas tiveram sua integridade física violada, incluindo uma criança de 6 (seis) anos que ficou ferida.
Estado de Minas, 16 de Julho de 2011, página 2.

34- Crônica: Desconectado, disforme...



Desconectado, disforme...
José Luiz Quadros de Magalhães

O que é o método e porque apostamos no formalismo para julgar o que é melhor e afastar do conhecimento o que não se enquadra no padrão ou: a padronização para evitar a diversidade. Os obstáculos para conhecer o diferente.

“É ridículo(...) ver os expedientes

dos formalistas para fazer com

que as superfícies pareçam

um corpo, com profundidade

e volume.” (Bacon, 1607-12)

            Neste império da forma e dos sentidos; da superficialidade e da competição criaram então uma forma de controle sobre a “ciência”. Enquadrar o pensamento é algo fundamental para não perturbar a busca do prazer. A razão é perigosa para o gozo. Ora, mas a ciência e a razão sempre foram uma forma de controlar o que se pode pensar com liberdade.

            A mesma coisa dita por pessoas diferentes tem efeitos diferentes. A mesma coisa dita por pessoas diferentes pode ter sentidos diferentes. Toda a fantasia construída em torno das pessoas e as sacralizações de funções, atividades, títulos, cargos gera este efeito e encobre ou revela sentidos.

          Após todo este manifesto contra a massificação, pela liberdade, contra a tentativa permanente dos outros imporem para nós o que é melhor, o que pode ser lido, não vamos pensar que poderemos ser facilmente livres. A gramática, a linguagem escrita nos aprisiona, não só nos sentidos está o condicionamento do nosso pensar mas na construção da frase. Uma palavra pede outra, e uma palavra falta... e algum leitor, qualquer um, lerá a frase com outro sentido, uma palavra com outro significado e a liberdade será, em parte restituída.

            

Deve haver algo surpreendente publicado em alguma parede, em alguma revista pequena e mal editada, ou em frases mal construídas com português errado. Isto é uma esperança de liberdade, o contrário seria um elogio à mesmice.

33- Crônica: Cabelo Ruim



 Cabelo ruim.



Por José Luiz Quadros de Magalhães



            Para o quê um cabelo é bom? Toda vez que ouço esta expressão me faço esta pergunta: para o quê o cabelo é bom ou ruim? Acho que deve ser para pentear. Mas e se a pessoa não gosta de pentear o cabelo? Eu, por exemplo, não gosto de pentear e mantenho mensalmente meu cabelo com, no máximo, três centímetros de tamanho. Logo o cabelo ruim para mim é o cabelo bom para quem gosta de pentear. O cabelo bom então seria aquele que não precisa pentear. Ora, mas pentear para que? Porque o cabelo deve ser condicionado a permanecer com todos os seus fios na mesma direção. Poderíamos democratizar o cabelo e deixar que os fios fossem para o onde quiserem.

O cabelo pode virar arte. O problema do cabelo arte é a submissão dos fios (individualmente e coletivamente) à vontade do artista (a submissão do dono (?) do cabelo também é radical: alguns nem mexem a cabeça). Ora, a estética pode ser extremamente autoritária. Teríamos assim o totalitarismo imposto aos fios de cabelo. Cada grupo de cabelo teria sua função pré-determinada e não poderia fazer outra coisa. Sair da formação implica em severa punição. O fio ou grupo de cabelo que não obedece ao artista pode ser excluído para sempre. Pode ser cortado!

Esta intervenção valorativa da cultura sobre os fios e grupos de cabelos tem a finalidade de obrigar os cabelos (fios e grupos) a funções para as quais eles não nasceram para fazer. A cultura e o poder, assim, agem sobre os cabelos (fios e grupos) para submetê-los à vontade autoritária e preconceituosa da cultura, para obrigá-los a se comportarem e se posicionarem de tal forma que ajudem no processo de dominação hegemônica.

Assim, o poder obrigará o dono do cabelo (mas o cabelo tem dono? O cabelo é escravo?) a enquadrar o seu cabelo. Ora, se o cabelo se torna escravo do dono o dono também é escravo do cabelo, principalmente quando ele é obrigado a negá-lo diariamente. Por exemplo: o dono (a dona) estica o cabelo diariamente, ou faz uma escova progressiva que deve ser renovada a cada três meses. De outra forma, os (as) donas (donos) de cabelos esticados, anelam os seus cabelos com certa freqüência (optei pelo português antigo só pra contrariar, pois querem me escravizar dizendo como devo falar e escrever: a quem pertence o idioma que falamos?). Eu não sou cabelo.

Existem aqueles que fogem dos seus respectivos cabelos e raspam a cabeça para não se enquadrarem em determinado grupo que rejeitam. Estes já sofrem toda a força do poder hegemônico e se negam diariamente. Outros deixam o cabelo do rosto crescer; outros não podem deixar o cabelo do rosto crescer; outros têm cabelos bonitos; outros têm cabelos feios (quem diz o que é feio e bonito?); outros têm cabelos compridos; outros não podem ter cabelos compridos e muito menos despenteados; alguns despenteiam cuidadosamente o cabelo para causar a impressão de que seus cabelos são livres: talvez estes cabelos sejam os mais escravizados.

O problema disto tudo, é que o cabelo passa a ser usado como mecanismo de poder, de estranhamento, de controle, repressão, como mecanismo de exercício de hegemonia.

Quando os cabelos finalmente se rebelarão? Ora, a tarefa é difícil uma vez que muitos cabelos se encontram drogados por química pesada o que condiciona a sua ação e elimina a sua rebeldia: o shampoo (será que posso escrever shampoo – xampú – champú – champô - schampuuuuu). Ora, é xampu[1] seu burro, e sem acento. Dicionário Aurelius locuta, causa finita. E viva a autoridade de quem a tem.





[1] Xampu: [Do hind. Chhamna, ‘amassar’, ‘apertar’, pelo ingl. Shampoo.] S.m. Substância saponácea, em geral liquida, usada para a lavagem dos cabelos e couro cabeludo. [Var. gráfica (lus.): champô.] Mas só em Portugal! (observação do autor). Encontrado no Novo Dicionário Aurélio da língua portuguesa, terceira edição revista e atualizada, editora Positivo, Curitiba, 2004.


UM BOM FILME SOBRE CABELO: HAIR.

32- Crônica: O inferno e o capeta



O inferno e o capeta.



por José Luiz Quadros de Magalhães



Nas minhas aulas de Teoria do Estado, quando me refiro às políticas de encarceramento em massa, que agora, em pleno século XXI, se repetem, lembro que, para aquelas pessoas que não se adequavam aos estreitos padrões de legalidade e normalidade estabelecidos pelos poucos (ricos) que se encontravam (encontram em geral) no poder, existiam três destinos: o presídio, o manicômio ou o inferno. Sempre brinco com meus alunos que o inferno seria a melhor opção uma vez que o capeta não teria tanta criatividade para fazer tanta maldade como as pessoas fazem nos presídios e manicômios.

Outro dia, conversando com um colega, um bom cristão protestante, esse me dizia que ele achava que a bondade de Deus era tão grande que, embora existisse inferno, este lugar estaria vazio, pois Deus perdoaria e salvaria a todos.

O inferno são os outros diria Camus. O inferno está na terra, experimentaram e experimentam muitos. Os campos de concentração do passado e do presente; os manicômios e presídios do passado e do presente; a tortura, a violência, a tortura mental; a fissura da droga e a violência do estado; a miséria, a fome, a doença e a solidão; o egoísmo e o capitalismo; a destruição e a indiferença, a falta de solidariedade. E o capeta, ora, o capeta que tortura, que mata, que se farta de ganhar tirando e explorando o trabalho dos outros; o capeta arrogante que manda, que prende, que bate e exclui; o capeta está nos presídios e manicômios; na direção das grandes empresas capitalistas, babando e deliciando-se com o sofrimento dos outros.

A construção cultural da ideia de inferno está presente em várias culturas. O inferno seria o destino dos pecadores, não adaptados. Efetivamente a ideia de inferno inspirou e inspira as punições aos não adaptados, que por sua não adaptação devem ser punidos pois ameaçam o poder. Logo, a partir da aceitação de um mundo transcendental dividido entre céu e o inferno (agora mais simplificado depois que o Papa acabou com o purgatório), o mundo terreno também passou a funcionar neste regime simplificado. O céu para quem merece (quem tem poder e logo diz quem merece) e o inferno para aqueles que ameaçam os que merecem. Nesta construção cultural do bem e do mal as pessoas se dedicaram a construir infernos cada vez mais infernais para aqueles que foram (são) considerados maus pelos que se encontravam (encontram) no poder. Surge então um problema de lógica. Ao se esforçarem em tornar a vida dos maus, cada vez mais infernal, os responsáveis pela construção do inferno na terra viraram capetas (ou talvez demônios, os assessores do capeta). Assim, estas pessoas, ao criarem o inferno se tornaram também maus e passaram a merecer o inferno após a morte. Os maus (corruptos, assassinos, torturadores, egoístas, equivocados, perdidos) passaram a ser torturados em instituições infernais (os hospícios, presídios, delegacias de polícia, sanatórios, quartéis) por outros maus (corruptos, torturadores, assassinos, perversos). Assim uma contradição cíclica se instalou nesta lógica que nos acompanha até hoje, ao criarmos infernos para punir os maus, nos tornamos maus merecedores do inferno. O problema que esta lógica sustentada pelas religiões majoritárias no mundo, faz com que inclusive os bons, que têm a justiça a seu lado, quando passarem a punir os maus (torturadores de torturadores, ou assassinos de assassinos, ou corruptos de corruptos) se tornarão os torturadores dos torturadores de torturados, amparados por uma justiça ainda maior pois estarão punindo severamente os que puniram aqueles que ameaçaram o poder com suas condutas inadaptadas. 

            Hoje imaginei que talvez o inferno, aquele inferno que muitos irão depois da morte de seu corpo na terra, talvez este inferno não seja parecido com os manicômios e presídios. O inferno está dentro da cabeça, o sofrimento e a dor, e para estes que sofrem só há uma solução: carinho, atenção, paciência, consideração. Os que vivem o inferno aqui na terra certamente não vão para o inferno depois de morrerem. Então comecei a imaginar a instituição inferno para um deus bom: o inferno, lugar para onde iriam aqueles que se perderam, que cederam à violência e à dor; que cometeram pecados e que infernizaram a vida dos outros transformando a vida destes um verdadeiro inferno.

Percebi que, talvez, a única maneira de encerrar este circulo infernal de punição severa dos punidores severos, seja a descoberta de que o inferno não pode existir, nem mesmo para os construtores de infernos (infernos instituídos como os presídios e os manicômios) ou o inferno dentro da cabeça (criado pela insanidade de um mundo egoísta).

Logo, acho que descobri a charada. A partir da noção daquele deus bom do meu amigo protestante percebi que o que as religiões chamam de inferno (enquanto aquele lugar destinado aos maus, os equivocados, perseguidos, corruptos, assassinos, ladrões, torturados, egoístas, etc) em verdade são espaços de recuperação. Imagino que, após a morte, os que não se perderam em meio à violência e o egoísmo irão para uma sociedade livre, igualitária, sem fome e sem opressão, sem exploração; solidária; sem doenças, sem desespero, sem consumo, sem egoísmo; com muito amor e tesão; sem patrão; sem governos; sem dinheiro e consumismo. Já os que se perderam, deverão ir para estes espaços de recuperação. Nestes espaços poderão se libertar da ignorância, da raiva; do egoísmo e da arrogância; da ansiedade e da perversidade. O lugar para os maus será um lugar de tolerância, de estudo, de aprendizado, de paciência, de libertação da pobreza de espírito. Este é o inferno do deus bom: talvez um grande campo gramado, ao final uma praia, um mar manso, com água clara, raso, tranqüilo, onde funcionários deste deus bom, com paciência e ciência ajudarão finalmente aos corruptos, fascistas, assassinos, egoístas, torturadores se livrarem da corrupção, da ignorância, da burrice e da mediocridade. Não vejo outra forma de acabar com o inferno em que muitos, justa ou injustamente vivem do que realmente acabando com este estúpido simbolismo de um inferno dirigido pelos maus para os maus. Talvez junto com o fim do inferno acabemos de vez com o maniqueísmo simplificador, com as nomeações redutoras da percepção da complexidade humana, da percepção de um ser humano multidimensional, complexo, distinto, mutável, permanentemente mutável.